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Quando escrevemos, levamos connosco a forma como vemos o mundo. As ideias que ouvimos desde pequenos. Os filmes que vimos. Os livros que lemos. Os papéis que aprendemos a associar a homens e mulheres.
Tudo isso aparece na escrita, muitas vezes sem intenção. Não porque o escritor seja necessariamente preconceituoso. Mas porque certos padrões estão tão presentes na ficção que acabam por parecer naturais.
Escrever sem cair em preconceitos de género não significa apagar diferenças entre homens e mulheres. Também não significa criar personagens “perfeitas” ou moralmente exemplares. Significa escrever pessoas completas.
Estereótipos nem sempre são óbvios
Alguns preconceitos são fáceis de identificar. Outros aparecem de forma subtil:
— mulheres cuja narrativa gira constantemente em torno da aparência
— personagens femininas que existem apenas para apoiar o protagonista masculino
— homens incapazes de demonstrar vulnerabilidade emocional
— mulheres fortes escritas como se precisassem de perder feminilidade para terem autoridade
— homens reduzidos apenas à força, agressividade ou frieza
Muitas vezes, o problema não está numa personagem isolada. Está no padrão.
Uma personagem feminina pode ser insegura, maternal ou emocional. Uma personagem masculina pode ser agressiva, fechada ou impulsiva. O problema surge quando todas seguem exatamente o mesmo molde. Quando o género começa a limitar aquilo que uma personagem pode ser.
O corpo feminino não precisa de ser constantemente observado
Uma das perguntas mais úteis durante a revisão é: Esta descrição existe porque a personagem repararia realmente nisto… ou porque a narrativa está a objetificá-la?
Nem todas as descrições físicas são um problema. O problema surge quando:
— mulheres são constantemente descritas pelo corpo
— enquanto homens são descritos pela ação, presença ou personalidade
A forma como descrevemos personagens revela muito sobre a forma como a narrativa as vê.
O Teste de Bechdel
O Teste de Bechdel surgiu em 1985, com Alison Bechdel, como uma forma de ironizar a falta de papéis relevantes para mulheres na cultura pop.
Para que uma obra passe no teste, precisa de cumprir três critérios simples:
1. ter pelo menos duas personagens femininas com nome
2. essas personagens devem conversar entre si
3. a conversa não pode ser sobre homens
O teste funciona como um indicador crítico: as mulheres da narrativa são sujeitos ativos… ou existem apenas em função das personagens masculinas?
Importante: Passar no teste não significa automaticamente que a obra esteja livre de preconceitos ou que represente bem as mulheres. E não passar não torna automaticamente uma história má.
O teste é simples. Uma obra pode passá-lo com uma conversa superficial sobre um tema doméstico, por exemplo.
Ainda assim, continua a ser uma ferramenta útil para identificar padrões na forma como as personagens femininas são construídas e utilizadas dentro da narrativa.
Outra pergunta útil durante a escrita
A escritora Chimamanda Ngozi Adichie sugere um exercício simples: “Se invertermos o género desta personagem, a história continua a funcionar da mesma forma?”
Se a resposta for não — ou se a mudança tornar certas atitudes “estranhas” ou pouco credíveis aos olhos do leitor — talvez exista um viés de género na construção da narrativa.
Este exercício ajuda-nos a perceber quantas características atribuímos às personagens porque fazem sentido para aquela pessoa… e quantas atribuímos apenas porque associamos determinados comportamentos a homens ou mulheres.
Apoio não é salvamento
Muitas histórias criam relações onde uma personagem existe apenas para salvar a outra.
Mas apoio emocional e salvamento não são a mesma coisa.
Uma personagem pode precisar de ajuda sem perder autonomia. Relações mais fortes tendem a surgir quando ambas as personagens influenciam a narrativa e o crescimento uma da outra.
Escrever sem preconceito não significa apagar diferenças
Homens e mulheres têm experiências diferentes no mundo. São tratados de formas diferentes em muitos contextos históricos, sociais e culturais. Ignorar isso pode tornar a narrativa artificial.
Mas existe uma diferença importante entre mostrar preconceitos existentes no mundo da história e deixar que a própria narrativa os reforce sem reflexão
Reconhecer que personagens enfrentam desafios diferentes por causa do género pode tornar a história mais realista. O problema surge quando a narrativa trata essas diferenças como inevitáveis, naturais ou justificadas — sem questionamento.
Personagens memoráveis parecem pessoas completas
No fim, aquilo que torna uma personagem memorável é a humanidade.
Contradições. Desejos. Fragilidade. Raiva. Ambição. Cuidado. Medo. Coragem. Dúvida.
Quando escrevemos personagens completas, deixamos de criar símbolos ou estereótipos e começamos a criar pessoas.
Checklist prática para revisão
Durante a revisão do teu manuscrito, considera estas perguntas:
— As minhas personagens femininas têm objetivos próprios que não dependem de personagens masculinas?
— As minhas personagens masculinas demonstram vulnerabilidade e emoções complexas?
— Descrevo corpos femininos e masculinos com o mesmo tipo de linguagem e frequência?
— As personagens secundárias parecem ter vida própria fora da narrativa principal?
— Existem conversas entre personagens do mesmo género que não giram em torno de romance ou do género oposto?
— Se inverter o género de uma personagem, a história ainda faz sentido da mesma forma?
— As minhas personagens “fortes” têm permissão para serem também frágeis, inseguras ou erradas?
— Evito que todas as personagens de um género sigam o mesmo padrão de comportamento?
Estas perguntas não têm respostas certas ou erradas absolutas. São ferramentas de reflexão. Ajudam-nos a perceber quando estamos a escrever por hábito — e quando estamos a escrever com intenção.