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Quando pensamos numa cena tensa, é fácil imaginar uma perseguição ou uma discussão intensa. Estes momentos criam tensão de forma visível, porque o risco está diante do leitor e os acontecimentos avançam rapidamente.
Ainda assim, algumas das cenas que mais nos prendem decorrem à mesa de jantar ou dentro de um carro parado. As personagens podem estar a falar de um assunto aparentemente banal enquanto o leitor sente que uma palavra mal escolhida será suficiente para alterar a relação entre elas.
O que mantém o interesse é a sensação de que existe algo por resolver. Uma personagem quer algo e a incerteza do resultado influencia cada escolha. Quando também existe a possibilidade de perder algo importante, até uma cena tranquila pode deixar o leitor à espera do que acontecerá a seguir.
A tensão começa no desejo
Antes de pensares no conflito da cena, descobre o que cada personagem deseja naquele momento.
Talvez uma filha queira adiar contar à mãe que vai mudar de cidade, enquanto a mãe tenta convencê-la a aceitar um trabalho perto de casa. Um amigo pode querer pedir dinheiro emprestado e, ao mesmo tempo, preservar a imagem de que tem a vida organizada.
São desejos que dificilmente conseguem coexistir. Mesmo que as personagens falem sobre o jantar ou sobre o tempo, cada resposta aproxima-as daquilo que querem ou aumenta o risco de o perderem.
Imagina esta conversa:
Leonor colocou a carteira ao ombro.
— Não vais ficar para jantar? — perguntou a mãe.
Leonor olhou para o relógio.
— Tenho comboio às nove.
— Ainda falta muito.
A mãe colocou um segundo prato na mesa e alisou o guardanapo ao lado dos talheres.
— Eu sei — respondeu Leonor, sem largar a alça da carteira.
Pouco aconteceu. Uma mulher pôs a mesa e a filha consultou as horas. No entanto, a insistência da mãe e a resistência de Leonor sugerem que a decisão de ficar envolve mais do que uma refeição.
Para desenvolveres esta tensão, precisas de conhecer os objetivos das duas. Leonor quer sair antes de ter uma conversa difícil. A mãe deseja mantê-la ali tempo suficiente para abordar o assunto. Cada uma tenta conduzir a situação numa direção diferente, embora nenhuma diga claramente aquilo que pretende.
Trabalha com desejos incompatíveis
Um conflito ganha força quando aquilo que favorece uma personagem dificulta o objetivo da outra. A vitória de uma representa uma perda ou uma cedência para a outra pessoa.
Esta incompatibilidade pode surgir em situações muito comuns. Uma personagem quer prolongar uma visita e a outra procura uma forma educada de sair. Alguém precisa de obter uma resposta enquanto o interlocutor se esforça por mudar de assunto. Um irmão quer vender a casa da família e o outro acredita que preservá-la é a única forma de manter viva a memória dos pais. Também pode existir tensão dentro da própria personagem, quando deseja revelar a verdade e teme as consequências dessa honestidade.
Quanto mais claro for o desejo para ti, menos precisarás de o explicar ao leitor. Podes revelá-lo através das tentativas da personagem: as perguntas que faz, os assuntos a que regressa, aquilo que ignora e a forma como reage quando perde terreno.
No exemplo anterior, o segundo prato já mostra a tentativa da mãe de prolongar a permanência de Leonor. Quando uma ação serve um objetivo, o gesto deixa de ser apenas decoração e passa a participar no conflito.
Cria uma pergunta que o leitor queira ver respondida
A tensão também cresce a partir daquilo que ainda está por descobrir. O leitor percebe que existe uma informação ou decisão capaz de alterar a cena e continua a ler porque quer chegar a esse momento. Essa pergunta pode surgir através de um objeto, de uma reação inesperada ou de uma personagem que evita responder. Não precisas de a formular diretamente. Basta oferecer ao leitor indícios suficientes para que reconheça a existência de algo importante.
Imagina que Daniel recebe a visita da irmã:
Daniel abriu a porta com uma carta na mão.
— Entra. Ainda chegaste antes da chuva.
A irmã tirou o casaco, sem desviar os olhos do envelope.
— Então recebeste-a.
Daniel colocou a carta debaixo do jornal.
— Esta manhã estava um frio estranho para outubro. Aposto que vamos ter trovoada.
— Já a abriste?
Os olhos de Daniel descairam sobre o jornal. Aproximou-se da janela e observou o céu.
— Tenho de limpar as caleiras antes da próxima chuvada.
A tensão nasce da importância que os irmãos atribuem ao envelope e da recusa de Daniel em responder.
O leitor ainda desconhece o remetente e o conteúdo da carta. Apesar disso, já compreendeu que aquele envelope é importante para ambos, que a irmã sabe da sua existência e que Daniel não quer falar sobre isso. A conversa sobre o tempo torna-se uma forma de fuga.
A partir daqui, surgem duas perguntas capazes de conduzir a leitura: o que diz a carta e por que razão Daniel receia abri-la?
A curiosidade precisa de pontos de apoio. Quando escondes toda a informação, o leitor não consegue perceber o que está em causa e pode sentir-se desorientado. Neste exemplo, a presença física da carta e a reação dos irmãos mostram que existe algo por resolver, mesmo antes de conhecermos a história que os trouxe até ali.
Podes revelar o contexto aos poucos. Talvez a irmã reconheça a caligrafia no envelope. Daniel pode admitir que esperava aquela carta há vários meses. Um dos dois pode mencionar a última vez que receberam notícias do remetente.
Cada nova informação deve ajudar o leitor a compreender melhor a situação ou transformar a pergunta inicial numa questão mais específica. Se descobrirmos quem enviou a carta, passamos a querer saber por que razão essa pessoa decidiu escrever agora. Se Daniel finalmente abrir o envelope, o conteúdo pode criar uma decisão ainda mais difícil.
Ao construíres uma cena deste género, pergunta-te:
— Que informação quer o leitor descobrir?
— Que indício pode mostrar-lhe que essa informação é importante?
— Durante quanto tempo consegues adiar a resposta sem criar confusão?
Uma pergunta por responder dá direção até às cenas mais tranquilas. Enquanto Daniel fala sobre o tempo, a carta continua debaixo do jornal e o leitor permanece atento ao momento em que alguém deixará de conseguir evitá-la.
Dá importância às pequenas consequências
O tamanho da consequência depende da personagem e do momento da história. Um jantar queimado pode ter pouco impacto numa noite comum e adquirir outro peso quando foi preparado como tentativa de reconciliação.
As consequências pessoais são capazes de sustentar cenas muito discretas. Uma personagem pode desiludir alguém cuja aprovação ainda procura ou perder a oportunidade de fazer uma pergunta que adiou durante anos. Em ambos os casos, o impacto nasce do valor que aquele momento tem para ela.
Pergunta-te o que ficará diferente se a personagem falhar naquele momento. Talvez tenha de permanecer mais tempo numa casa onde se sente desconfortável, admitir que mentiu, aceitar uma proximidade que tentou evitar ou pedir desculpa antes de estar preparada. A consequência precisa de ter significado para ela, mesmo quando mais ninguém a consideraria grave.
Esta combinação entre desejos incompatíveis, perguntas por responder e consequências pessoais cria uma tensão que não depende de grandes acontecimentos. O leitor permanece atento porque compreende o que está em causa e ainda não sabe como a personagem conseguirá sair daquela situação.
Usa o subtexto da conversa
Quando as personagens dizem exatamente aquilo que sentem e explicam todas as suas intenções, resta pouco para o leitor descobrir. O subtexto nasce da distância entre as palavras pronunciadas e aquilo que cada personagem procura alcançar.
A mãe pergunta se Leonor fica para jantar. Por baixo dessa pergunta, pode estar a dizer: «Fica tempo suficiente para eu te falar deste trabalho e te convencer a permanecer perto de casa.» Quando Leonor menciona o comboio, a resposta transporta outro aviso: «Quero sair antes de chegarmos a esse assunto.»
Nenhuma destas frases precisa de aparecer diretamente no diálogo. O leitor pode descobri-las através dos gestos e das respostas desviadas. O silêncio torna-se especialmente expressivo quando já percebemos qual é a conversa que as personagens estão a evitar.
Também podes usar objetos e tarefas quotidianas para tornar visível essa resistência. A mãe coloca um segundo prato na mesa antes de Leonor aceitar o convite, como se ficar para jantar já estivesse decidido. Pode começar a servir a comida, encher-lhe o copo ou afastar discretamente a carteira da cadeira. Leonor mantém a carteira ao ombro, consulta o relógio e permanece de pé. Mesmo quando responde à mãe, o corpo continua orientado para a saída. Cada gesto protege a possibilidade de partir.
As duas personagens disputam o rumo da cena através de ações muito pequenas. A mãe tenta transformar a permanência de Leonor numa escolha natural. Leonor evita instalar-se num espaço do qual será mais difícil sair. Enquanto conversam sobre o jantar e os horários dos comboios, ambas procuram controlar o momento em que a verdadeira conversa terá de começar.
Se quiseres explorar melhor o valor destes intervalos, podes ler A Ficção Contemporânea e o Medo do Silêncio.
Faz a cena mudar alguma coisa
Uma cena tranquila também precisa de movimento. No final, a relação entre as personagens pode estar mais próxima ou mais distante, uma suspeita pode ganhar força, uma decisão pode ser adiada e uma nova informação pode alterar aquilo que o leitor esperava.
A mudança não precisa de resolver o conflito. Leonor pode sair sem contar a verdade. O envelope pode ficar por abrir. Os assuntos permanecem em aberto, embora o equilíbrio entre as personagens mude.
Ao planeares o final, pergunta-te o que a personagem sabe ou decide agora que ainda não existia no início da cena. Esta pequena deslocação impede que a conversa pareça um intervalo desligado da narrativa e ajuda a criar continuidade para o capítulo seguinte.
No artigo Como Escrever um Capítulo, falo precisamente sobre a importância de existir uma mudança entre o início e o fim de cada unidade narrativa.
Perguntas para criares tensão numa cena tranquila
Antes de escreveres ou reveres a cena, tenta responder:
— O que deseja cada personagem neste momento?
— De que forma esses desejos entram em conflito?
— Que pergunta deverá acompanhar o leitor durante a cena?
— O que pode perder a personagem, mesmo que a consequência pareça pequena para os outros?
— O que mudou quando a cena terminou?
Se estas respostas forem claras, observa cada fala e cada gesto. Pergunta-te de que modo aproximam a personagem do seu objetivo ou criam resistência, alterando aquilo que o leitor espera.
Experimenta numa conversa quotidiana
Escolhe duas personagens e coloca-as numa situação comum: preparar uma refeição, arrumar uma divisão, esperar por um transporte ou escolher uma prenda. Dá-lhes desejos incompatíveis e decide qual é a consequência pessoal que ambas querem evitar.
Durante a cena, impede-as de falar diretamente sobre o conflito. Usa as ações e as perguntas incompletas para revelar aquilo que tentam esconder. No final, altera ligeiramente a relação de forças entre as duas.
Depois, relê a conversa e identifica o momento em que sentiste maior expectativa. Se a cena perder força, verifica se o desejo está presente na ação e se o leitor compreende o que pode mudar.
Quando aparentemente nada acontece
Uma cena com pouca ação pode prender o leitor quando as personagens desejam alguma coisa e encontram resistência, mesmo que continuem sentadas à mesma mesa.
Quando existe uma pergunta por responder e a consequência tem valor emocional, um olhar evitado pode carregar mais tensão do que uma discussão. O leitor continua porque pressente uma mudança e quer descobrir quem dará o primeiro passo.
Às vezes, tudo o que acontece numa cena é uma personagem colocar um segundo prato na mesa.
Se o leitor compreender o que esse prato está a pedir, a história já está em movimento.
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