As Bengalas da Escrita

Escrever um livro passa por três fases distintas: a escrita do primeiro rascunho; a fase de edição; e a fase de revisão.

Mesmo para quem deseja enviar o manuscrito para uma editora tradicional que venha a trabalhar o texto, editar e rever a própria obra é sempre uma responsabilidade do autor.

Um manuscrito mais cuidado aumenta as chances de ser levado a sério. O editor não avalia apenas a ideia, avalia a forma como é escrita.

Edição vs Revisão: qual é a diferença?

Edição
É o momento de trabalhar o conteúdo.
Cortas, reorganizas, reescreves cenas, ajustas ritmo e estrutura.

Revisão
É o momento de trabalhar a forma.
Corriges erros, ajustas a linguagem e afinas o texto.

Porque a revisão deve ser a última fase

Se começares a preocupar-te com cada frase demasiado cedo, vais perder tempo a melhorar partes que podem nem ficar na versão final.

Com a prática, a tua escrita melhora naturalmente, mas, nas fases iniciais, o mais importante é avançar na história. A precisão vem depois.

O que procurar na revisão

Nesta fase, vamos à procura de:
— erros gramaticais
— pontuação
— mas também padrões de escrita que enfraquecem o texto

E é aqui que entram as bengalas.

O que são bengalas de escrita?

Bengalas de escrita são palavras, expressões ou construções que usamos repetidamente, sem nos apercebermos, para “facilitar” a escrita. É onde nós, escritores, nos apoiamos para avançar na escrita. São úteis para terminar um primeiro rascunho e não são erros que devem ser todos apagados, mas, em excesso, tornam o texto previsível, repetitivo e menos expressivo.

Bengalas mais comuns na escrita

Clichês e lugares-comuns

Embora possam ser usados ocasionalmente, na escrita de ficção devem ser evitados sempre que possível, pois são expressões desgastadas e repetidas que retiram originalidade e frescura ao texto.
O uso excessivo tende a distanciar o leitor e a tornar a narrativa previsível, comprometendo a autenticidade da voz do autor.

Quando nos deparamos com um clichê, é útil perguntar:
“Como posso transmitir esta ideia de forma única ou inesperada?”

Muitas vezes, a substituição por descrições originais, metáforas mais específicas ou até uma abordagem mais direta pode enriquecer o texto e torná-lo mais marcante.

Um dos exemplos mais comuns são as expressões com “coração”.
É uma palavra que podes procurar no teu texto para tentar evitar.
Nos nossos textos, os corações fazem tudo: saltam, pulam, batem, apertam, correm, galopam.
Podemos enriquecer muito a escrita se evitarmos estas expressões e procurarmos transmitir essas emoções através de outras sensações do corpo, reações ou imagens mais concretas.

Adjetivos

Os adjetivos devem ser usados com cuidado.
Podem enriquecer o texto, mas, em excesso, acabam por estar a contar em vez de mostrar, sobretudo quando são subjetivos ou demasiado genéricos.

Em especial, palavras como “muito” e “pouco” tendem a enfraquecer a frase.
São vagas e pouco concretas, podem quase sempre ser substituídas por algo mais preciso.
Por exemplo:
“muito medo” → pavor
“olhos grandes” → olhos curiosos

Ou, melhor ainda, essas características podem ser mostradas através da ação, do comportamento ou da reação da personagem.

Isto não significa eliminar todos os adjetivos. Eles são ferramentas valiosas, mas a sua força está no equilíbrio e na precisão com que são usados.

Sempre que possível, tenta:
— escolher palavras mais concretas
— evitar generalizações
— mostrar em vez de contar

Alguns dos adjetivos genéricos e/ou subjetivos mais comuns que podem retirar impacto ao texto são:
— bonito/a
— feio/a
— grande
— pequeno/a
— estranho/a
— muito/a
— pouco/a

Palavras de incerteza

O uso excessivo de palavras que transmitem dúvida ou incerteza pode enfraquecer o texto, tornando-o menos impactante e memorável.

Palavras como “quase”, “talvez” e “parecia/parece”, quando usadas em excesso, retiram força à narrativa.
O leitor recorda melhor imagens concretas e o seu uso excessivo pode dificultar esse sentimento da história ficar connosco.

Isto não significa que devam ser eliminadas por completo. Podem ser úteis em momentos específicos, por exemplo, para transmitir ambiguidade emocional ou dúvida da personagem. Mas devem ser usadas com intenção.

Sempre que possível, tenta:
— tornar a ação mais concreta
— substituir termos vagos por descrições específicas
— eliminar o que não acrescenta

Quanto mais clara for a imagem, mais forte será o impacto.

Palavras definitivas

Expressões como “sempre”, “nunca”, “tudo”, “todos” e “único”, têm uma força semântica muito grande. Quando usadas pontualmente, criam impacto, mas, em excesso, perdem esse efeito.

Uma exceção pode ser o diálogo. Aqui, estas palavras podem ser usadas de forma intencional para construir a voz da personagem, alguém mais dramático, impulsivo ou absoluto nas suas afirmações.

Fora isso, convém moderar.

Advérbios em “-mente”

Os advérbios de modo são uma das bengalas mais comuns na escrita.
Servem muitas vezes como apoio para nos ajudar a escrever rapidamente aquilo que sentimos e isso é valioso na fase inicial.
No entanto, numa fase de revisão, é essencial olhar para eles com atenção e reduzir o seu uso ao mínimo necessário.

Advérbios terminados em “-mente” simplificam a descrição de ações ou emoções.
Embora isso torne o texto mais direto, também o torna menos imersivo e mais explicativo, ou seja, contam em vez de mostrar.
Em vez de construir a cena com gestos, imagens e reações, limitam-se a informar o leitor do tom ou da intenção.

Além disso:
— Muitas vezes, assinalam verbos fracos que poderiam ser substituídos por verbos mais fortes e específicos. Exemplo: “Disse rapidamente” → “Disparou” ou “Atirou as palavras antes de pensar”.
— Criam uma cadência repetitiva, sobretudo quando surgem com frequência no mesmo ritmo (…mente, …mente, …mente).
— Tornam a emoção superficial ou genérica, ao invés de a tornar visceral, particular e memorável.

Verbos a moderar

Há dois verbos muito comuns na escrita de ficção que podem, muitas vezes, ser evitados:

“começar”
Indica o início de uma ação, mas muitas vezes é desnecessário.
“começou a correr” → correu
“começou a chorar” → chorou

A frase torna-se mais direta e a imagem mais imediata.

“ter”
Pode enfraquecer a frase quando existem alternativas mais específicas.
“tenho de sair daqui” → preciso de sair daqui

Além disso, surge muitas vezes como verbo auxiliar:
“tinham visto” → viram

Sempre que possível, simplifica.

Evita também acumular dois ou três verbos na mesma construção. Isso torna a frase mais pesada e menos direta.
Muitas vezes, há uma forma mais simples — e mais forte — de dizer o mesmo.

A revisão não é sobre cortar tudo. É sobre escolher melhor. Escrever com mais intenção.

Na Avaliação de Manuscrito faço-te um relatório extenso onde avalio as primeiras 8.000 palavras do teu livro e te ajudo também a identificar as bengalas que mais usas e como as transformar num texto mais forte.

Se quiseres perceber como melhorar o teu manuscrito, podes marcar uma reunião de apresentação gratuita comigo.