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Para definires os teus objetivos de escrita para 2026, há uma pergunta essencial a fazer: Em que fase do livro estou e para onde quero ir a seguir?
Sem esta clareza, os objetivos tornam-se vagos (“quero escrever mais”, “quero publicar”) ou irrealistas (“acabar tudo num ano”), e acabam por gerar frustração em vez de direção.
Escrever um livro não é uma única tarefa.
É um processo composto por várias fases distintas, cada uma com necessidades, ritmos e tipos de objetivos diferentes.
O Ciclo de Vida de um Livro (Visão Macro)
De forma simplificada, o percurso de um livro passa por estas grandes fases:
- Escrita do primeiro rascunho
- Leitura e avaliação da viabilidade do texto
- Planeamento da edição
- Edição por camadas
(estrutura → personagens → ritmo → estilo → coerência) - Releituras e ajustes
(repetir o ciclo de edição até o texto funcionar) - Revisão final
(ortografia, repetições, vícios de linguagem, clareza) - Leitura externa e feedback
Leitores alfa
Leem versões ainda muito cruas.
Ajudam a perceber se a história funciona no essencial.
Leitores beta
Leem versões mais trabalhadas.
Ajudam a identificar problemas de ritmo, clareza, empatia e coerência. - Trabalho sobre o feedback recebido
- Decisão sobre o caminho de publicação
A partir daqui, o percurso divide-se.
Se optares por publicação tradicional ou a pagamento:
— pesquisar editoras adequadas ao teu género
— perceber o que cada uma pede (CV, carta de apresentação, sinopse, excerto)
— preparar esses materiais e o e-mail ou texto de envio (que pode definir se o teu texto vai ou não ser lido)
— enviar o manuscrito
— repetir o processo se ainda não foi aceite
— eventualmente trabalhar com editor e equipa editorial
Se optares por edição de autor:
— escolha de que plataforma publicar
— escolha de profissionais (edição, revisão, capa, paginação)
— decisões gráficas e de formato
— publicação
— divulgação e distribuição (aqui também podes escolher se contratares profissionais para te ajudarem nesse processo)
Tudo isto faz parte do projeto livro — mesmo que não seja “escrever palavras”.
Por isso, quando defines objetivos, precisas de saber qual destas fases queres trabalhar em 2026. Se ainda estás no início do teu primeiro rascunho, teres o objetivo de ver o teu livro publicado no mesmo ano pode não ser viável ou podes ter de sacrificar a qualidade da tua obra para o fazeres, criando um entrave para uma segunda publicação.
O Primeiro Rascunho Também Tem Etapas
Quando falamos em “terminar o primeiro rascunho”, muitas vezes passa a ideia errada de que basta escrever até ao fim, sem pensar em mais nada.
Na prática, mesmo a fase do primeiro rascunho tem várias etapas internas — para alguns podem surgir no início, para outros só a meio ou perto do fim, mas todas precisam de existir para que a história funcione.
O primeiro rascunho é o momento de descoberta, mas também de definição progressiva.
Personagens: quem conduz a história
Mesmo que não tenhas tudo claro no início, há perguntas que precisam de resposta até ao final do rascunho:
— Quem é (ou quem são) a(s) personagem(ns) principal(is)?
— O que querem?
— O que as impede de alcançar isso?
— Como começam a história — e como terminam?
Uma ficha de personagem não precisa de ser longa, até pode ser apenas um post-it. O necessário para durante a edição te ajudar a:
— perceber se o comportamento é coerente;
— alinhar decisões e reações.
O mais importante é compreender o arco da personagem: o que muda nela ao longo da história e porquê.
Estrutura: o Esqueleto que Sustenta a História
Quando falamos de estrutura, não falamos de uma fórmula obrigatória.
Falamos de esqueleto narrativo.
O essencial não é seguir uma estrutura famosa, mas:
— escolher uma estrutura (existente ou criada por ti)
— compreendê-la
— saber onde estás dentro dela
A estrutura serve para responder a perguntas como:
— Onde ocorrem as mudanças importantes da personagem?
— Onde entra a informação essencial?
— Onde a tensão sobe ou quebra?
— Onde a história muda de direção?
Pode ser:
— três atos
— cinco atos
— 15 pontos narrativos (Save the Cat)
— por partes
— blocos temáticos
— fases emocionais
— qualquer divisão que faça sentido para o teu livro
O importante é perceber que se mudas um capítulo ou um evento de lugar, alteras a estrutura e precisas de perguntar: a história continua a funcionar ou desmorona-se?
Ter consciência da estrutura ajuda-te a:
— definir objetivos mais claros
— perceber o que falta escrever
— reler com intenção
— planear a edição futura
Mundo e contexto: o palco da história
Toda a história acontece num tempo e num lugar — mesmo quando isso não é explícito.
Durante o primeiro rascunho, é fundamental definir:
— época
— localização
— contexto social, cultural e emocional
Se a história decorre num mundo criado por ti, entramos no worldbuilding — um processo mais longo e profundo, que merece atenção própria (e que ficará para outro artigo).
Sem este enquadramento, as ações das personagens perdem coerência e credibilidade.
Conflito: o motor da narrativa
Uma história sem conflito não avança.
Mesmo que só o consigas formular claramente depois de escreveres parte do rascunho, precisas de perceber no final:
— qual é o conflito principal
— que obstáculos a personagem enfrenta
— como esses obstáculos a obrigam a agir, decidir e mudar
Este entendimento é essencial para:
— reler com distância
— avaliar ritmo
— perceber se há empatia e interesse
— identificar partes que estagnam
Objetivos como ferramenta de avanço (não como prisão)
Todas estas definições podem tornar-se objetivos intermédios, que ajudam a avançar no rascunho.
Recorda-te que todos os objetivos têm prazo.
O que muda é o critério que usas para os medir.
O importante é subdividir o objetivo anual em marcos mais pequenos e realistas, que te deem direção sem te paralisar.
Objetivos não servem para te pressionar, mas para te orientar.
Podes definir objetivos:
— por número de palavras
— por capítulos
— por atos ou partes da estrutura
— por fases do projeto
— por decisões e definições a tomar
Mas sempre com tempo associado.
Exemplos:
— Escrever o Ato 1 até 31/03/2026
Este pode ser subdividido, por exemplo, em escrever 800 palavras por semana
— Chegar às 30.000 palavras até junho
— Definir personagens e conflito principal até fevereiro
— Terminar o primeiro rascunho até setembro
O prazo não serve para te punir — serve para te orientar e pode e deve ser revisto ao longo do ano.Quando percebes em que fase estás, quais são as fases seguintes e quanto tempo real tens, os objetivos deixam de ser pressão e passam a ser ferramentas.
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