Tempo de leitura: 3 min

Se já ouviste o conselho “mostra, não contes”, talvez tenhas ficado com a ideia de que contar é sempre errado.
Mas a verdade é que tanto o “show” como o “tell” têm o seu lugar — e saber quando usar cada um é o que distingue um escritor iniciante de um escritor consciente.
Mostrar é convidar o leitor a experienciar.
Contar é guiar o leitor a compreender.
Ambos são ferramentas — e o equilíbrio entre elas é o que cria ritmo, emoção e clareza na narrativa.
O que é “mostrar” (Show)?
“Mostrar” significa colocar o leitor dentro da cena.
Através de ações, gestos, descrições sensoriais e diálogo, o leitor vê, ouve e sente o que acontece.
Exemplo – Show:
Filipe segura a cenoura com firmeza. A lâmina da faca sobe e desce num som rítmico.
Com o ombro, prende o telemóvel junto à orelha.
— Sim, mãe, eu sei. — A voz dele sai baixa, mas a faca acelera.
O cheiro da cebola invade a cozinha. Uma ruga forma-se-lhe na testa.
— Já falámos disso. Não precisas de te preocupar.
Aqui o leitor vê e sente a tensão.
Não é preciso dizer que Filipe está irritado ou frustrado — está tudo nas ações.
O que é “contar” (Tell)?
“Contar” é resumir ou explicar.
É o narrador que nos diz o que aconteceu, sem detalhar o modo como ocorreu.
Exemplo – Tell:
Filipe cozinhava enquanto tentava acalmar a mãe ao telefone.
A conversa deixava-o tenso, mas preferiu não discutir.
Aqui sabemos o que aconteceu — mas não o vivemos.
Quando usar o “show”
Nem tudo precisa de ser mostrado, mas há momentos em que mostrar é essencial:
Cenas emocionais ou decisivas
Quando queres que o leitor sinta com a personagem.
“Os ombros dela caíram, e a respiração tornou-se curta.”
(em vez de “Ela estava triste.”)
Construção de personagens
Mostra quem o personagem é através das suas ações.
“Ele batia o pé enquanto o outro falava.”
(em vez de “Era impaciente.”)
Momentos de tensão ou viragem
Ações físicas e detalhes sensoriais tornam a cena memorável.
O som da porta a fechar pode ser mais forte do que uma explicação sobre raiva.
Relações e interações
O modo como um personagem responde aos outros — o olhar, a pausa, a escolha de palavras — revela mais do que qualquer narração direta.
Quando usar o “tell”
Contar não é um erro. É uma questão de ritmo e foco.
Usa o tell quando o detalhe não acrescenta emoção nem avança a história.
Transições rápidas de tempo
“Dois meses depois, tudo tinha mudado.”
Perfeito para saltos temporais ou resumos.
Informação de contexto
“Ela crescera numa aldeia pequena, onde todos se conheciam.”
Não vale a pena mostrar 20 páginas disso — basta dizer.
Resumo de eventos menos importantes
“O jantar foi agradável, e todos se despediram felizes.”
Não precisas descrever cada prato ou conversa.
Vantagens e desvantagens
| Tipo | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|
| Show | Imersão, emoção, identificação com a personagem, construção de atmosfera | Pode tornar o texto pesado ou lento se usado em excesso |
| Tell | Eficiência, clareza, ritmo rápido, foco | Pode criar distanciamento emocional e reduzir impacto |
Como equilibrar os dois
Um bom texto respira entre mostrar e contar.
Usa o show para as cenas que queres que o leitor sinta.
Usa o tell para mover a história para a frente sem perder o ritmo.
O segredo está na intenção: o que queres que o leitor viva — e o que basta que ele saiba.
Queres saber se o teu texto mostra demais ou conta de menos?
Participa no Desafio de Escrita Criativa do Mês — e recebe feedback gratuito sobre o teu texto.
🔗 Desafios de Escrita Criativa