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Existem várias estruturas narrativas que nos podem ajudar a criar e editar livros de ficção.
Acredito que estas estruturas não devem ser vistas como regras rígidas ou fórmulas obrigatórias. Como em quase tudo na escrita, o mais importante é compreender a ferramenta antes de decidir como a usar ou até como brincar com ela.
No início, sobretudo, a estrutura pode ajudar o escritor a orientar-se. Mas, para tal, é preciso compreendermo-la.
Hoje vamos explorar uma das mais conhecidas e influentes na ficção: a Jornada do Herói.
O que é a Jornada do Herói?
A Jornada do Herói é uma estrutura narrativa popularizada por Joseph Campbell, que analisou mitos, lendas e histórias antigas de diferentes culturas e percebeu que muitas delas seguiam padrões semelhantes.
Mais tarde, Christopher Vogler adaptou essa estrutura para a narrativa moderna, sobretudo cinema e ficção.
No centro desta estrutura está a ideia de que uma personagem abandona aquilo que conhece, atravessa conflito e regressa transformada.
Divide-se em 12 passos: Mundo Comum; Chamamento à Aventura; Recusa; Mentor; Encontro com o Mentor; Travessia do Limiar; Provas, Aliados e Inimigos; Aproximação da Caverna Secreta; Provação; Recompensa; Caminho de Volta; Ressurreição; Retorno e Consagração.
1. Mundo Comum
Na Jornada do Herói, começamos por apresentar o mundo da nossa personagem principal. Como é o seu mundo antes da sua viagem começar, antes da mudança.
O mundo compreende a localização, descrição da cidade/aldeia onde vive, mas também o mundo para a personagem, a sua rotina, os seus medos, os seus desejos, relações e as limitações do seu mundo.
O Mundo Comum é importante porque cria contraste. Sem perceber quem a personagem era antes, a transformação perde impacto.
2. Chamamento para a Aventura
Depois da apresentação do mundo, temos um acontecimento que irá quebrar o equilíbrio. Este momento é conhecido também por primeiro ponto de viragem e/ou evento incitante.
É um momento sem volta atrás, o que aconteceu muda o mundo da personagem.
Pode ser uma descoberta, uma ameaça, um erro, uma morte, um encontro, uma missão, uma perda. É o momento em que a história começa verdadeiramente.
3. Recusa
A mudança raramente acontece sem resistência.
Nesta fase pode haver um debate interior (um conflito interno da personagem por insegurança, receio, negação, medo) ou exterior (alguém próxima à personagem ou antagogista que é contrária a esse chamamento).
4. Mentor
O mentor surge como alguém ou algo que ajuda a personagem a avançar quando a personagem ainda está na recusa.
Pode ser um amigo, um sábio, um desconhecido, um livro, uma memória, um rival, alguém que obriga a personagem a olhar para si própria.
O mentor representa orientação, preparação ou consciência.
5. Travessia do Limiar
Este é o momento decisivo em que o herói deixa para trás o conforto do mundo conhecido e entra no território desconhecido. O herói cruza uma fronteira, simbólica ou literal, que separa o seu mundo comum desta nova realidade.
6. Testes, Aliados e Inimigos
Nesta etapa, o protagonista começa a conhecer este novo mundo (ou realidade). O seu novo mundo expande-se e a personagem começa a enfrentar também obstáculos.
É aqui que cria relações, encontra aliados, descobre inimigos, começa a perceber as regras deste novo mundo, falha, aprende e cresce.
7. Aproximação da Caverna Secreta
Este é um momento de preparação e antecipação na jornada do herói. Após superar as provas iniciais e estabelecer alianças, o herói começa a aproximar-se do conflito principal da narrativa.
A “Caverna Secreta” pode ser um lugar literal, como uma fortaleza ou um esconderijo, mas também pode ser algo metafórico, representando uma situação de alto risco ou um confronto interno.
Aqui, a tensão aumenta. Muitas vezes surge medo, dúvida, sensação de perda iminente e conflito interno mais intenso. É o momento antes da grande mudança.
8. Provação
Este é o momento em que a personagem deve enfrentar o seu maior desafio ou medo mais profundo, uma experiência que testa os seus limites físicos, emocionais e/ou espirituais. É um confronto transformador, onde o herói arrisca tudo, podendo perder algo valioso, até a própria vida.
Este é, muitas vezes, o ponto de maior tensão na narrativa. É um momento de transformação. Após superar a provação, o herói não será o mesmo.
Neste passo, a personagem enfrenta uma perda, um confronto, uma revelação, uma “morte” simbólica ou literal.
É aqui que o conflito interno e externo se encontram com mais força. Muitas vezes, a personagem precisa de abandonar uma parte de si para continuar.
9. Recompensa
Depois da crise, de ter enfrentado e superado a provação, é o momento de colher os frutos. A recompensa pode ser: conhecimento, sobrevivência, verdade, reconciliação, liberdade ou poder.
10. O Caminho de Volta
O caminho de volta é a fase da jornada do herói em que ele inicia o seu retorno ao seu mundo original. No entanto, essa jornada de volta nem sempre é simples. Agora existe uma nova consciência. A personagem já não vê o mundo da mesma forma. Muitas vezes, surgem também novos desafios e o herói precisa de consolidar as lições aprendidas ao longo da aventura para superar as dificuldades finais, sejam elas externas do que internas. Pode até perceber que também já não pertence completamente ao lugar de onde partiu.
11. A Ressurreição
O último grande teste.
A personagem precisa provar aquilo em que se transformou.
É o momento em que a mudança interna se confirma através da ação.
12. O Regresso
Aqui, o herói regressa ao mundo comum levando consigo a recompensa conquistada durante a sua aventura. Esta recompensa pode ser algo tangível, como um objetivo mágico ou um tesouro, ou intangível, como sabedoria, autoconhecimento, ou uma nova perspetiva sobre a vida.
O retorno é um momento de celebração e consagração na jornada do herói.
Como usar a Jornada do Herói sem criar uma história previsível
Milhares de histórias usam esta jornada e continuam a parecer diferentes porque:
— as personagens são diferentes
— os conflitos são diferentes
— o mundo é diferente
— as escolhas têm consequências diferentes
— a ordem em como nos apresentam estes passos é diferente.
A estrutura não substitui profundidade emocional, conflito ou originalidade. Ela apenas ajuda a organizar transformação narrativa.
É importante perceber que a Jornada do Herói não é obrigatória e nem precisa de seguir esta ordem.
Agora que conheces a estrutura, podes decidir começar pelo encontro com o mestre, por exemplo, e depois ir revelando como era o seu mundo, o que lhe aconteceu e qual fora o debate antes desta aventura.
O objetivo não é encaixar todas as histórias numa fórmula. É compreender ferramentas narrativas para as usar de forma consciente.
Olha para a tua história.
Consegues perceber:
— qual é o momento que quebra o equilíbrio?
— o maior conflito da personagem?
— aquilo que ela precisa de perder ou enfrentar para mudar?
Se precisares de ajuda podemos trabalhar juntas.
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